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[:pb]Fazer doutorado fora do Brasil e permanecer fora do país ou voltar para aplicar o conhecimento adquirido lá fora? A decisão é polêmica entre pesquisadores e doutorandos, sobretudo na atual conjuntura política e econômica do Brasil, mas tem resultado em finais felizes para os muitos brasileiros que sonham em ter suas vidas melhoradas por projetos de pesquisa científica desenvolvidos por esses profissionais. É o caso da Dra. Maria Elizete Kunkel, que passou 8 anos na Alemanha para um doutorado em Biomecânica. Atual responsável pela área de Biomecânica do curso de Engenharia Biomédica da UNIFESP, a professora conta que, ao voltar para o Brasil após o doutorado, passou a buscar uma linha de pesquisa em que pudesse se dedicar e aplicar seus conhecimentos na prática em seu país, e não como trabalho científico.

 

Foi então que teve contato com o vídeo do carpinteiro Richard, da África do Sul, que perdeu a mão em um acidente de trabalho. Com o auxílio de um designer de fantoches, Richard conseguiu desenvolver uma prótese de mão que o auxiliasse em sua deficiência, isso na época do “boom” das impressoras 3D open source após a quebra da patente, em 2009. A prótese não serviu para ele, pois necessitava de movimentos mais complexos, mas, se adequava perfeitamente para tarefas mais simples, como, por exemplo, as executadas por crianças. A história de Richard deu origem ao projeto E-nable, conhecido no mundo todo como um projeto colaborativo e de código aberto para criação de próteses de baixo custo. Motivada pela transformação social do projeto, e inspirada no E-nable, Maria partiu para a criação de um modelo brasileiro do programa, batizado de Mao3D. (Em março deste ano, Maria concedeu uma entrevista ao 3DPrinting onde conta em detalhes o projeto, inclusive como participar como voluntário).

 

Em sua palestra no Expo3DBR – veja a íntegra no vídeo abaixo – Maria conta sua saga na implantação de um programa para o uso eficiente da impressão 3D aplicada à tecnologia assistiva. O primeiro desafio, como se pode imaginar, é de natureza financeira, já que as próteses tradicionais são muitas vezes inviáveis pelo altíssimo custo. Para se ter uma ideia, uma prótese de mão chega a custar R$ 350 mil. “Essa é uma preocupação do nosso grupo desde o início, de tentar desenvolver e pesquisar produtos que realmente sejam de baixo custo e tentar desenvolver um produto que seja fácil de usar, que tenha uma garantia e que consiga atender à demanda de quem precisa desse produto”, conta. “Nesse sentido, a impressão 3D abre um ramo de possibilidades que a gente ainda não tem dimensão dentro da Medicina. Mas sabemos que existem muitas estruturas do corpo humano, tanto internas como externas, que podem ser substituídas com o uso da impressão 3D”, comemora.

 

 

O segundo obstáculo, é que ainda não existe uma legislação vigente específica para próteses de mão no Brasil. “Uma prótese de mão não tem registro na Anvisa. A Anvisa só pode registrar se estiver dentro da norma de mão. Não existe norma de mão no Brasil. Eu tenho que fazer a norma. Mas, para fazer a norma, preciso de um equipamento que teste se a prótese é boa ou não. E não temos nada disso ainda. Por isso somos dependentes do que vem de fora. Mas, por outro lado, temos cursos de Engenharia, Mecatrônica, e sabemos, por exemplo, fazer aviões. A Embraer sabe fazer um avião, o ITA trabalha com desenvolvimento de peças e estruturas, o Brasil consegue vender isso para o mundo inteiro. Só que esse tipo de recurso (tecnologia assistiva) precisa de investimento específico”, desabafa.

mao3d
Maria excursiona pelo Brasil divulgando o Mao3D; aqui, durante o evento em Hortolândia, SP

Maria conta que, nos últimos anos, o governo federal, por pressão de outros países, tem investido mais recursos em tecnologias assistivas. Com isso, foram criados 71 grupos de pesquisa em tecnologia assistiva em diferentes universidades do Brasil. Mas ainda é um número pouco satisfatório para um universo de mais de 200 milhões de pessoas. Cada grupo ficaria com aproximadamente 3 milhões de pessoas, considerando todas as deficiências. Ou seja, é praticamente impossível resolver assim. De acordo com a professora, o Brasil dispõe de um catálogo nacional com cerca de 1500 produtos em tecnologias assistivas. Novamente um número baixíssimo considerando toda a demanda de pessoas que existem para ser atendidas. “Porque quando dividimos esses produtos em grupos, cada grupo fica com uma ou duas opções. Só a título de comparação, a Alemanha possui 11 mil produtos no catálogo de tecnologia assistiva. Então quando um médico vai fazer o implante de uma prótese, a dificuldade dele é que existem tantos modelos que ele nem sabe qual usar. Aqui acabamos comprando dois ou três modelos da Alemanha e pagamos muito caro por isso”, conta ela.

 

Movimento Open Design

 

De 3 anos para cá, Maria conta que tem investido em modelos criados a partir do open design, como uma alterantiva e uma esperança que algo possa ser feito para melhorar a vida das pessoas na atual situação de crise em que vivemos. Os modelos de open design, como o nome sugere, são modelos abertos disponíveis na internet, que qualquer pessoa pode baixar, e de onde é possível gerar um produto real e que atende a uma demanda específica. Exatamente como ela busca para seu projeto com tecnologias assistivas na UNIFESP. Tudo isso, é claro, não seria possível se não fosse a disseminação e a propagação do uso das impressoras 3D.

 

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